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Inversão de valores

30/06/2020 às 12:10

“Vivemos em um mundo onde a morte está ensinando coisas sobre a vida”

Já estamos virando o ponteiro para o quinto mês de quarentena. E como tudo isso era inimaginável, esse tempo pandêmico nos trouxe lições além das que acreditaríamos receber. Lá no fim de semana de 14 e 15 de março, quando o futebol fechou os portões no Brasil, vimos que só isso não seria suficiente. Com a humildade - tão sumida até então - o esporte se colocou no lugar de entretenimento primordialmente e paramos a bola. Mas agora ela está começando a ser colocada novamente no círculo central, e com muitas controvérsias. 

Na Europa, grande centro esportivo mundial, o futebol foi retomado há poucas semanas. No Brasil, o Rio de Janeiro reiniciou o Campeonato Carioca. Mas há de falar que, diferentemente da capacidade esportiva - e técnica, e tática, e científica, e social… - que a Europa tem, nosso estado vizinho retomou os jogos sem motivação plausível para isso, deixando aberto nosso imaginário para entendermos essa ação como bem quisermos. E cá estou eu dando minha opinião. 

Primeiro, vamos aos números: a Alemanha demorou 57 dias entre o pico de casos e o retorno ao jogos e 30 dias entre o pico de mortes e o retorno aos jogos. A Bélgica sequer voltou ou vai voltar nesta temporada. Na Espanha, foram 72 dias do pico de casos e 70 do pico de mortes até a volta ao futebol. A França decretou o PSG campeão, encerrando assim seu campeonato nacional. A Itália, aquele país NÃO-modelo mundial de gestão da pandemia, ficou sem futebol por mais de 100 dias. 

E nós, amigos, segundo país com mais casos de coronavírus no mundo, ultrapassando 1,3 milhão de contaminados, nós, que estamos nos aproximando dos 60 mil brasileiros mortos, perdendo só para os mais de 127 mil estadunidenses, nós que temos baixo índice de testagem, de leitos de UTI; que temos alto índice de subnotificações, que estamos enfrentando nosso pico - ou será que podemos subir ainda mais? Enfim… nós que temos números que provam não ter valor para quem quer, a qualquer custo, voltar o futebol.

Porque não são esses clubes com poder de fala que podem justificar que vão quebrar, ter seus jogadores passando fome: são os da Série D. Porque não são esses clubes que têm jogadores que ganham por partida e precisam dessa renda do jogo para colocar comida em casa: são os da várzea. Não são esses clubes que têm patrocinadores locais, de micro e pequenas empresas: são os regionais.

Entendo que esteja na hora de intensificar ainda mais a discussão, entre clubes e federações, do cenário de protocolos de segurança para o esporte adequar-se à essa nova realidade de um vírus multiplicador, que veio e está sem tempo para ir embora, e que pode ir e voltar, ir e voltar. Mas pular a discussão e partir para o jogo às cegas é desafiador!

Estamos sacrificando vidas, mais que àquelas que precisamos que estejam na linha de frente dos serviços essenciais, por um propósito que foge, mais uma vez, ao princípio base do futebol: entreter. Estamos sob risco de colapso em todas as instâncias da saúde: do atendimento no posto de saúde a superlotação em cemitérios. Volto à frase, de autor desconhecido, que iniciei este papo com vocês: “vivemos em um mundo onde a morte está ensinando coisas sobre a vida”, e falar de reinício do futebol é deixar que sua emoção passe do ‘minuto de coração parado’ após o gol para um coração parado de vez após um contágio. Eternizamos jogadores, dirigentes, camisas e títulos; não nos faça colocar o esporte, em si, apenas na nossa memória. Respeitem o momento, respeitem nossas prioridades, respeitem o esporte como paixão e não razão de nossas vidas. 

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